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Lendas das Sete Cidades
(in Portuguese language)
O
rei Branco Pardo e a Lagoa das Sete Cidades
Há muitos, muitos anos atrás, havia um reino tão grande e florescente
que o seu soberano, Brancopardo, não sabia ao certo o número dos seus vassalos,
dos castelos, cidades e aldeias. Era a Atlântida. Apesar desta riqueza, o rei e
a rainha Branca Rosa, que tinham sido muito felizes em tempos passados, viviam
então muito tristes por não terem filhos. Brancopardo tornava-se cada dia mais
vingativo e tratava muito mal os seus vassalos.
Uma
noite em que o rei vagueava pelos jardins do palácio com a rainha teve uma visão
que lhe falou assim:
- Rei
da Atlântida, venho trazer-te a alegria. Em breve serás pai de uma filha linda
e virtuosa, mas para que tenha fim a tua maldade, é preciso que nem tu nem
homem nenhum se aproxime da princesa. Viverá dentro dos muros de sete
maravilhosas cidades que eu erguerei no mais lindo recanto do teu reino e só
donzelas a servirão. Presta atenção! Se antes dos vinte anos ousares transpor
as muralhas das sete cidades, serás morto e um cataclismo arrasará o teu reino.
O rei, cheio de alegria, prometeu fazer tudo o que o anjo dissera e,
passados nove meses, nasceu uma linda princesinha. Sem sequer a ter visto, o rei
enviou-a para as Sete Cidades, cumprindo a exigência da visão. Os anos começaram
a arrastar-se lentos e dolorosos para os pais separados da filha querida. A
princesa Verde-Azul, rindo e cantando pelos jardins da cidade, rodeada de um
cortejo de virgens, ia crescendo formosa e boa.
Brancopardo
consumia-se de saudades, tornava-se cada vez mais colérico e a ansiedade de ver
a filha chegou ao ponto de não lhe caber no peito. Mandou aprontar um exército
com os seus mais valorosos guerreiros e pôs-se a caminho para as Sete Cidades.
A
viagem foi longa e, à medida que se aproximavam, o céu ia enegrecendo e ruídos
estranhos iam saindo da terra. Mas o rei caminhava sempre, desvairado, até que
surgiram, na escuridão trágica do dia, os muros das Sete Cidades.
Brancopardo,
sombrio e perturbado, levantou a espada e com ela bateu pesadamente numa das
portas. No momento em que o portão principal
se abria, uma espécie de trovão roncou, um fogo intenso elevou-se da
terra fendida e os muros abateram-se imediatamente sobre o rei, os seus vassalos
e todas as virgens que viviam nas Sete Cidades. Um tremendo cataclismo vulcânico
destruiu toda a Atlântica. Por fim veio o silêncio, o sol brilhou outra vez e
no mar viam-se nove pequenas ilhas. As Sete Cidades, onde a princesa vivia,
transformaram-se numa cratera coberta por duas calmas lagoas: uma é verde
porque no fundo ficaram os sapatinhos verdes da princesa; a outra é azul e
reflecte a cor do chapeuzinho que a princesa usava no seu passeio, quando foi
morta pelo mau tino do pai, o rei da Atlântida.
O Arcebispo Genádio e as Sete Cidades
Há
muitos, muitos anos, havia um rico fidalgo que tinha um filho mimado e
conhecedor da arte de nigromancia, através da qual conseguia facilmente seduzir
todas as donzelas que desejava. Passados os momentos de paixão, Genádio
esquecia a jovem e partia à procura de novas aventuras. Levava uma vida de
loucura e amores passageiros.
Certo
dia, porém, Genádio foi ferido
por uma arma na mão de um homem que quis lavar a honra de uma donzela enganada.
Entre a vida e a morte, o jovem fidalgo prometeu renunciar à vida degradante
que levava e tornar-se padre e anacoreta se Deus o livrasse da morte.
Assim
aconteceu. Curou-se, consagrou-se ao Senhor e passou a levar vida santa, começando
a dar-se milagres por sua intercessão. A sua fama galgou montanhas e chegou ao
conhecimento do Papa que o nomeou bispo e pouco tempo depois arcebispo.
Por
este tempo vieram pôr-lhe à porta da igreja da Sé uma linda menina recém-nascida,
que foi acolhida e criada pelo arcebispo Genádio como se fosse uma princesa.
Estava-se
na época em que os mouros, atravessando o Estreito de Gibraltar, invadiram a
Península Ibérica e a dominaram política e religiosamente. O arcebispo Genádio
não esperou muito. Reuniu os seus seis bispos, as suas gentes, preparou uma
numerosa frota e fez-se ao mar, levando também a menina sua protegida para
outra terra, onde pudesse manter viva a fé cristã.
Ao fim
de algum tempo de viagem, por mares turbulentos, foram ter a uma ilha muito fértil,
onde o arcebispo e os seis bispos fundaram cada qual a sua cidade. Nessa ilha de
clima ameno, de solo fértil e campos verdejantes, iniciaram uma vida de
prosperidade e desenvolveram-se sete ricas cidades.
Paz, a
menina criada e adorada pelo arcebispo, tinha crescido no entretanto. Era bela,
meiga, sonhava com jovens cavaleiros e esperava um que a amasse. Alguns destes
sonhos e esperanças eram balbuciados só em segredo às suas aias, mas mesmo
assim o arcebispo soube dessas confidências. Cioso da pureza da jovem,
relembrando talvez as indignidades que cometera em novo, decidiu defendê-la com
todas as suas forças e poderes. O excesso de zelo ou de ciúme fez com que
decidisse recorrer aos antigos conhecimentos em artes mágicas que possuía, se
necessário fosse, para conseguir que a ilha se ocultasse a quem dela se
aproximasse.
Certa
manhã, em que os sacerdotes oravam nos templos e a vida corria com harmonia nas
cidades, surgiu uma caravela com a cruz de Cristo desenhada nas velas que se
dirigiu para a ilha. Genádio, prevendo que a bordo vinha aquele por quem D. Paz
se poderia apaixonar, recorreu a todos os poderes nigromantes. Então a formosa
ilha transformou-se num enorme vulcão, as Sete Cidades precipitaram-se no
abismo e ficaram submersas.
No seu
lugar apenas ficou uma cratera coberta em parte por uma linda lagoa. A essa zona
da ilha de S. Miguel continuou a chamar-se Sete Cidades, embora apenas lá
exista agora uma pequena freguesia nas margens da lagoa.
A princesa e o pastor
Em
época recuada, existia, no lugar onde hoje fica a freguesia das Sete Cidades,
um reino próspero e aí vivia uma princesa muito jovem, bela e bondosa, que
crescia cada dia em tamanho, gentileza e formosura. A princesa adorava a vida
campestre e frequentemente passeava pelos campos, deliciando-se com o murmurar
das ribeiras ou com a beleza verdejante dos montes e vales.
Um dia,
a princesa de lindos olhos azuis, durante o seu passeio, foi dar a um prado viçoso
onde pastava um rebanho. À sombra da ramagem de uma árvore deparou com o
pastor de olhos verdes. Falaram dos animais e de outras coisas simples, mas
belas e ficaram logo apaixonados.
Nos
dias e semanas seguintes encontraram-se sempre no mesmo local, à sombra da
velha árvore e o amor foi crescendo de tal forma que trocaram juras de amor
eterno.
Porém,
a notícia dos encontros entre a princesa e o pastor chegou ao conhecimento do
rei, que desejava ver a filha casada com um dos príncipes dos reinos vizinhos e
logo a proibiu de voltar a ver o pastor.
A
princesa, sabendo que a palavra do rei não volta atrás, acatou a decisão, mas
pediu que lhe permitisse mais um encontro com o pastor do vale. O rei acedeu ao
pedido.
Encontraram-se
pela última vez sob a sombra da velha árvore e falaram longamente do seu amor
e da sua separação. Enquanto falavam, choravam e tanto choraram que as lágrimas
dos olhos azuis da princesa foram caindo no chão e formaram uma lagoa azul. As
lágrimas caídas dos olhos do pastor eram tantas e tão sentidas que formaram
uma mansa lagoa de águas verdes, tão verdes como os seus olhos.
Separaram-se,
mas as duas lagoas formadas por lágrimas, ficaram para sempre unidas e são
chamadas de Lagoas das Sete Cidades. Uma é a Lagoa Azul, a outra é a Lagoa
Verde e em dias de sol as suas cores são mais intensas e reflectem o olhar
brilhante da princesa e do pastor enamorados.
A Bela Eufémia
Eufémia
era uma das quinze filhas do rei Atlas e neta do Deus Júpiter. Como jovem muito
boa e de beleza invulgar inspirou os mais afamados estatuários do seu tempo e
enamorou os dez filhos do rei Neptuno.
Eufémia,
possuindo uma grande elevação de espírito, desprezou a condição terrena que
lhe ofereciam e preferiu tornar-se uma estrela da constelação das “Myades”,
suas irmãs. Mesmo assim continuou a apreciar o bem e a doutrina pregada por
Jesus foi-lhe transmitida por um Querubim, que lhe pôs na alma o desejo de
voltar à terra para espalhar a paz e a harmonia.
O
desejo de Eufémia acabou por realizar-se e veio habitar na ilha das Sete
Cidades, onde foi tomada e amada como filha de um riquíssimo príncipe,
mantendo-se jovem, bela e bondosa.
A presença benfazeja de Eufémia
fez-se sentir logo que chegou à terra. Nos banquetes os convivas eram
deliciados com música de cítaras e flautas e comiam-se as mais divinas
iguarias. A partir de então o sofrimento e a miséria desapareceram dessa ilha
de encanto e passou a dominar a alegria e a paz.
Num dia
calmo de Outono, no dia de S. Cosme, famoso médico árabe e patrono dos médicos,
Eufémia apareceu metamorfoseada numa planta. Dessa planta, que abunda nos matos
da freguesia das Sete Cidades, se prepara um chá que é bálsamo para todas as
dores e que tem o condão de defender as pessoas de todos os infortúnios.
Já
passaram quase dois mil anos desde que Eufémia se estabeleceu na terra, mas
ainda continua espalhando o bem e é por isso que a paz impera nas Sete Cidades,
em S. Miguel, e quem aí vai não pode deixar de se sentir inebriado pela
tranquilidade do ambiente paradisíaco.
Furtado-Brum,
Ângela, Açores, Lendas e Outras História, Ribeiro & Caravana Editores,
2ª edição/Dezembro de 1999 |